A Música no Cinema: Ennio Morricone
Uma ideia que me ocorreu ao ouvir de novo a banda sonora de Era uma vez na América, e que é muito subjectiva claro está, foi a seguinte: as composições de Ennio Morricone estão para o cinema como as de Gustav Mahler para a música clássica.
Reparem na melancolia. A melancolia a sério, pesada, viscosa, que se cola à pele e à alma, até deixar de doer. Quando alguém se entrega à melancolia, mergulha nela, e dificilmente sai ileso.
Sempre preferi a nostalgia à melancolia, é mais leve, quase aérea, como uma nuvem, ou como o nevoeiro antes de se dissipar. Leva-nos a viajar no tempo, mas estamos seguros por um fio que nos traz de volta, sabemos sempre que vamos regressar.
Voltando ao filme da música mais melancólica de todas as que ouvi de Ennio Morricone: não esquecer que este Era uma vez na América é um Sergio Leone. Aqui Robert de Niro num dos seus papéis. A tristeza naquele olhar quando se encontra com o homem que um dia fora seu amigo. Não há palavras para descrever aquele olhar.
E já viram cena mais triste do que a cena final, quando Robert de Niro adormece a sua dor numa casa de ópio? Aquele sorriso completamente ausente? Só Ennio Morricone para conseguir traduzir aquela ausência em música.
E assim também para a composição do Cinema Paradiso de Giuseppe Tornatore. Há lá música mais triste e nostálgica? Aquele realizador solitário a percorrer as memórias de infância, as personagens, os afectos, o grande amor ao cinema, a paixão de adolescente de que nunca se recompõe...
As minhas composições preferidas, as que condizem mais com a minha natureza pouco dada à melancolia, são as dos filmes The Untouchables de Brian De Palma e Na Linha do Fogo de Wolfgang Petersen. Este último, já está a navegar aqui...
De qualquer modo, as mais famosas penso que ainda são, além da do filme Cinema Paradiso, as do filme de Sergio Leone Era uma vez na América e do filme de Roland Joffé, The Mission.
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A Música no Cinema: Andrew Lloyd Webber
Das composições de Andrew Lloyd Webber, a minha preferida ainda é Jesus Christ Superstar.
Não se zanguem os fãs das suas peças musicais, não me gritem aos ouvidos: e os Cats?, a Evita?, O Fantasma da Ópera?
Cada um gosta mais do que sente, do que faz ressonância nos seus neurónios e nos nervos restantes, na corrente sanguínea, nos pulmões, nos músculos, nas articulações...
É esse arrepio e essa comoção que eu sinto ao ouvir as composições de Jesus Christ Superstar, mas têm de ser as do filme. Daquela aventura no deserto.
Um autocarro chega, vários jovens de jeans saem e vestem a pele das personagens. Cristo é a mais trágica. E Judas. E os apóstolos. E Maria Madalena. E os chefes da comunidade judaica. E Herodes. E Pilatos.
Todos se perfilam no seu espaço-tempo próprio. E a tragédia começa. Começa de forma poética, as vozes sonham. Cristo é ouvido, pensa ele. Na verdade, nunca saberemos quem realmente o ouviu. Quem realmente o percebeu. Essa eterna solidão está nesta peça musical. O percurso de fim trágico já se adivinha.
A linguagem do poder. A indiferença. O oportunismo. A alienação da multidão que se apressa a seguir um mestre para logo a seguir o negar. A multidão que escolhe Barrabás. E o fim.
Reparem como a música acompanha as diversas tonalidades da peça, das personagens, da sua tragédia pessoal ou da sua alienação intrínseca.
A voz de Cristo no jardim das oliveiras, o seu desespero solitário, a rejeitar o papel trágico, a morte, o fim do sonho.
Lloyd Webber consegue aqui traduzir em música todas as emoções e sentimentos que esta tragédia envolve: a esperança, o amor, o medo, o desprezo, a indiferença, a traição, a solidão, o desespero, o arrependimento. Está lá tudo, nesta peça musical. E isso é verdadeiramente notável.
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A Música no Cinema: Bernard Herrmann
Associamos Bernard Herrmann aos filmes de Hitchcock: The Trouble With Harry, The Man Who Knew Too Much, Vertigo, North by Northwest, Psycho, Marnie… Destes, talvez a composição mais impressionante seja mesmo a de North by Nothwest… aquela perseguição final no monumento do monte Rushmore…
Mas a minha composição preferida é a de um Nicholas Ray On Dangerous Ground. A música segue o filme, da escuridão da noite citadina, e da violência e revolta do protagonista, até esse lugar na neve, muito branco e solitário. Até chegar a essa casa isolada, onde uma mulher nunca se sente sozinha e compreende o mundo exterior, o mundo que recebe através dos olhos de outros. Esse lugar muito branco será a possibilidade de alguma paz e tranquilidade para este homem.
A música adquire força, intensidade e dramatismo nessa perseguição pela neve. Nunca mais a consegui esquecer, é magnífica. Se virem ou revirem o filme, reparem bem nessa cena da perseguição: está lá a tragédia e o absurdo também, a maior vulnerabilidade, e também a maior dor, a que marca e aprisiona para sempre.
Curiosidade: Como o riso é terapêutico e calculo que muitos de nós precisamos dessa terapia, sugiro que vejam ou revejam este Hitchcock bem-humorado The Trouble With Harry.
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A Música no Cinema: Leonard Bernstein
Há duas formas de colocar a música num filme, pelo menos é o que verifiquei ao longo de anos a ver filmes: de forma fusional ou de forma justaposta (como uma sinalização ou identificação).
A minha preferida é a primeira, quando a música acompanha as cenas e passa a fazer parte delas. Esta ligação deve implicar um processo muito trabalhoso: a imagem não pode ser submergida pela música, nem a ideia contrariada ou caricaturada, a não ser que seja essa a intenção. Nos filmes de Hitchcock, Bernard Herrman fá-lo de forma magistral.
Embora possa parecer fusional, sempre que a música sugere uma personagem ou um lugar ou uma ideia, considero-a justaposta, como se lhe colássemos em cima uma etiqueta a identificá-los. Exemplo: revi há dias o Guerra e Paz com o Henry Fonda (Pedro) e a Audrey Hepburn (a Natasha mais comovente que já vi) e a música era um pavor. Quando os soldados franceses, já em retirada, se deslocam penosanamente pelos pântanos russos, nesse Inverno rigoroso, há partes em que os acordes sugerem a Marselhesa. Estão a ver a ideia?
Em Manhattan, Woody Allen revela o seu amor a Nova Iorque e é a música de George Gershwin que nos acompanha. Em muitos dos seus filmes a banda sonora é uma homenagem a compositores americanos.
Assim também é nos musicais: a música adquire um estatuto próprio, os actores colocam-se quase em sentido, passam a cantores. Mesmo que o façam naturalmente, como na Serenata à Chuva.
Bem, hoje pensei em Leonard Bernstein, não pelo seu West Side Story mas pelo filme On The Waterfront. No filme a música acompanha as cenas e as personagens de tal forma que deixamos de conceber a imagem sem a música e a música sem a imagem. Vai do poético ao bélico e do bélico ao poético. Agarra-nos. Hipnotiza-nos.
O filme em si é um desafio, metade acção exterior, ameaças, perseguições, lutas desiguais, metade acção interior, o conflito, a dúvida, a revolta. Afinal, é Elia Kazan. É fascinante ver como a música consegue ligar tudo isso e transportar-nos para essa parte da cidade, a parte escura, a parte violenta. E para esse refúgio no terraço de um prédio, onde o rapaz cria pombos. Metaforicamente o filme é belissimo. (Lembram-se de um outro terraço assim, de um prédio escuro, no Blade Runner?)
Leonard Bernstein pertence a um grupo de pessoas com uma sensibilidade musical invulgar. Lembram-se dos seus Concertos para Jovens? Além de descodificar as frases musicais, a ideia, a emoção, o sentimento, e de nos ensinar a identificar os instrumentos e o seu papel ali, enquadra o compositor na sua época. Um professor magnífico, com uma rara capacidade de comunicação e de agarrar os ouvintes.
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A música no Cinema e na vida
Quantas vezes não é uma música que nos salva?, que nos anima?, que nos vem lembrar que ainda há surpresas à nossa espera?
Alguns sons, uma voz, e voltamos a esse lugar mágico! Uma claridade que não sabemos definir. Deve ser a nossa própria claridade que transportamos connosco, mas de que nos esquecemos até alguma coisa nos lembrar o essencial de nós.
A música é uma delas. Uma coisa essencial.
A primeira coisa que conhecemos é um som ritmado, o som de um coração que bate. Embala-nos desde o início.
Em muitos momentos determinantes da minha vida a música esteve sempre presente. Acompanhou-me de perto, de muito perto. Como se marcasse o ritmo dos meus pensamentos, a minha respiração. Como se marcasse as cenas do filme em que se foi tornando a minha vida, às vezes David Lean, às vezes Frank Capra, mas também às vezes Woody Allen (embora eu o contrarie)... Só espero é que o Ingmar Bergman nunca me apanhe...
O Cinema sempre entendeu a importância da música porque desde o início se fez acompanhar por ela. E logo desde o início, antes do sonoro.
Com a música as cenas adquirem outra intensidade e também outra densidade.
Há algumas músicas de filmes que me fascinaram desde logo e que ainda são as minhas preferidas. Como estão ligadas aos filmes, irei falar de cada uma em próximos posts.
Hoje é só para lançar este desafio:
Quando virem ou revirem Immortal Beloved, sobre a vida atribulada de Beethoven, reparem na importância da música como expressão da agitação interior e dos sonhos originais, que aqui permanecem vivos, apesar do sofrimento, da solidão e da decadência.
Beethoven é um exemplo comovente de um génio que ultrapassa a maior limitação de todas para um compositor: a surdez prematura. No seu caso, as notas musicais são mentais. As suas últimas composições já não lhe eram acessíveis: ouvia-as mentalmente. É esta a dimensão do seu génio.
Mas Beethoven também ultrapassa a pior limitação de todas: a ausência de paixão. A paixão está ainda viva nas suas composições, mesmo perto do fim.
Reparem bem nessa correria da criança ao som do Hino à Alegria, nessa noite de estrelas, a fugir da violência paterna e a encontrar refúgio no reflexo universal de mil pontinhos luminosos, nesse lago muito quieto.
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...
Habituamo-nos aos nossos autores, aos nossos compositores
aos nossos realizadores, aos nossos amigos
aos nossos hábitos
Andamos de certo modo condicionados a determinados padrões
e nem damos por isso
Convencemo-nos, por qualquer razão
que somos pessoas abertas e tolerantes
que olhamos realmente e vemos
que estamos atentos e ouvimos
mas só vemos e ouvimos
aquilo para que estamos previamente preparados
para ver e ouvir
De vez em quando há uns abanões nessa calmaria
mas não passa disso
Fala-se então de equilíbrio
que tudo volta ao equilíbrio desejável
como uma lei da Física
Nada me arrepia mais do que essa palavra
adaptada às pessoas
e à vida e aos relacionamentos
Precisamos de situações inesperadas
que nos acordem realmente
Para escapar à tentação de hoje pegar nos meus autores
mas lá acabarei por cair
peguei num livro, Escrever, de Marguerite Duras
que encontrei num Inverno de 94...
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...
Sim, a música também nos leva até esse tempo-espaço
que nunca é exactamente como foi mas uma reconstrução
Misturamos tudo, emoções e pensamentos
imagens e claridades
Somos o que vivemos desde essa altura até agora
tudo no nosso cérebro como uma coisa viva
e sempre em transformação
Mil vezes essa amálgama confusa
de sentimentos e pensamentos, imagens e acontecimentos
que nunca sei situar
do que as certezas arrumadas de alguns
que não se deixam sequer transformar pela vida
em que a vida mal toca, passam pela vida de raspão
mergulham na existência e até parece que vivem intensamente
que mergulham por assim dizer na realidade
mas no fim de contas é tudo uma questão de superfície, de pele
não de essência nem de alma
A cada um a sua natureza
